Conheça a história de (muitos) erros e (poucos) sucessos da LJN, uma das publishers mais hateadas da história dos videogames
Durante os anos 80 e 90 era raro que nós, jovens jogadores, estávamos empolgados com nossos videogames de 8 e 16 bits, brigando para dizer quem era melhor, SEGA ou Nintendo, Sonic ou Mario, achando incrível a violência de Mortal Kombat ou gastando nossas fichas nos arcades de Street Fighter, não nos preocupávamos em saber quem eram as desenvolvedoras de nossos games preferidos. E quem publicava então, não sabíamos nem a diferença entre publisher e desenvolvedora.
Mas tinha uma que a gente fazia questão de saber. Uma cujo os games, por muito tempo, era sinônimo de jogos ruins e péssima jogabilidade e, o pior de tudo, era quem fazia todos os jogos de filmes e desenhos que adorávamos: a LJN.
Então, quando chegávamos na locadora e víamos um título baseado em um filme como De Volta para o Futuro, por exemplo, e esperávamos um jogo incrível, com gráficos legais e uma história que acompanhava o filme nós já sabíamos que não ia ter nada disso ao vermos o logo da empresa LJN na capa!
É mais ou menos como hoje em dia saber que os títulos de Star Wars estão todos na mão da EA Games e já esperar por um jogo medíocre e cheio de microtransações. Mas, você sabe o motivo de tanto hate? O por que ela é considerada uma das piores game developers de todos os tempos?
Vamos falar da história da LJN, do início como fabricante de brinquedos até a aquisição pela Acclaim (site oficial) e o fim e, se você tiver dúvidas, é só deixar nos comentários.
História da LJN
A origem no mercado de brinquedos
A história da LJN começa em 1967, quando Jack Friedman fundou a empresa nos Estados Unidos. O nome LJN veio das iniciais de Lewis J. Norman, o investidor que financiou a criação da companhia. No início, a empresa surgiu como fabricante de brinquedos e passou anos focada apenas nesse mercado.

Durante a década de 1980 a empresa ganhou bastante visibilidade por causa de brinquedos licenciados. Entre os produtos mais populares estavam bonecas inspiradas na atriz Brooke Shields e figuras baseadas no filme E.T. Esse tipo de produto era muito comum naquela época. Filmes e programas de TV viravam brinquedos rapidamente, e a LJN aproveitou bem essa tendência.
Um dos momentos importantes dessa fase aconteceu em 1984. Nesse ano a empresa conseguiu a licença oficial da World Wrestling Federation, a WWF, para fabricar bonecos de luta livre. Esses bonecos ficaram bastante conhecidos e ajudaram a consolidar o nome da empresa nas lojas de brinquedos.
Entrando no mundo dos games
O rumo da empresa mudou em 1985. Nesse ano a MCA, uma gigante do entretenimento, comprou a LJN. A compra abriu caminho para a empresa entrar no mercado de videogames, que naquela época estava crescendo rapidamente graças ao sucesso do Nintendo Entertainment System, o famoso Nintendinho.
A partir de 1987 a LJN começou a fazer jogos, principalmente para o Nintendinho. Mas, apesar da má fama, a empresa em si não fazia os jogos, ela contratava outras desenvolvedoras para fazer os games e publicava eles com o selo da LJN. A empresa aproveitava que tinha o licenciamento de vários personagens e filmes famosos para criar brinquedos e já fazia os games baseados neles.
Mas, a virada veio em 1990, quando a Acclaim Entertainment comprou a LJN, que decidiu encerrar a divisão de brinquedos e manter apenas o setor de jogos. O nome LJN continuou sendo usado como selo editorial até aproximadamente 1994 ou 1995. Depois disso o nome acabou sendo absorvido pela própria Acclaim e deixou de existir como empresa separada, sendo esse o fim da LJN.
Mas, o mais curioso é que, no ano de 2000, o jogo Spirit of Speed 1937, para Dreamcast saiu com o nome LJN na capa, mesmo com a empresa já encerrada havia bastante tempo. O motivo? Não sabemos exatamente, talvez eles estivessem tentando criar uma submarca separada para títulos menores, mas não existe nenhum motivo em especifico que foi divulgado.
Jogos baseados em filmes na era de 8 bits
Durante o final dos anos 1980 e começo dos anos 1990 a LJN ficou conhecida principalmente por publicar jogos baseados em filmes e desenhos. Na teoria, o que poderia dar errado para eles, não é? Afinal, os desenhos e filmes já eram populares entre as crianças e é claro que quereriam jogar jogos baseados neles. Mas, na prática…
Na prática, a maior parte deles eram péssimos jogos! Mesmo com ideias interessantes ou personagens famosos, vários títulos tinham jogabilidade ruim, fases confusas ou dificuldade exagerada. Com o tempo a reputação da LJN começou a ficar cada vez pior entre jogadores e revistas especializadas.
U dos exemplos mais conhecido é Beetlejuice, lançado para NES em 1991, baseado no filme de mesmo nome (por aqui é conhecido como “Os Fantasmas se Divertem”). O jogo foi desenvolvido pela Rare, estúdio que mais tarde ficaria famoso por jogos como Donkey Kong Country, Banjo-Kazooie e GoldenEye 007. O jogo mistura elementos do filme e do desenho animado que passava na época.
No jogo o jogador controla Beetlejuice enquanto atravessa fases no mundo dos vivos e dos mortos, chamado Neitherworld e salvar a personagem Lydia. Apesar de gráficos razoáveis, para o NES, o jogo tinha uma péssima jogabilidade e uma dificuldade absurda, com mortes injustas e inimigos que não davam um tempo mínimo para um ataque e esquiva. O jogo ficou marcado pela péssima excussão apenas de ter saído das mãos da RARE.
Outro caso famoso é Back to the Future, lançado em 1989. O jogo foi desenvolvido pela Beam Software e publicado pela LJN. A ideia era adaptar o filme De Volta para o Futuro de 1985.
A campanha coloca o jogador no controle de Marty McFly em várias fases ambientadas no ano de 1955. O objetivo é coletar ícones de relógio espalhados pelo cenário para impedir que a foto da família de Marty desapareça. Essa mecânica representa o risco de ele apagar o próprio futuro ao interferir no passado. No final do jogo ainda existe uma fase onde é preciso dirigir o DeLorean e atingir 88 milhas por hora.
Apesar da ideia interessante, o jogo recebeu críticas muito duras. O roteirista do filme, Bob Gale, chegou a chamar o jogo de um dos piores já feitos e disse que não recomendava que ninguém comprasse. Revistas da época também reclamaram bastante. Algumas análises diziam que o jogo era quase impossível de terminar sem usar o controle NES Advantage. A dificuldade absurda e o design confuso transformaram o jogo em um exemplo clássico de adaptação ruim.
A continuação Back to the Future Part II & III saiu em 1990, também para NES. O jogo novamente foi desenvolvido pela Beam Software e publicado pela LJN. Dessa vez a história mistura elementos dos dois filmes seguintes da série.
O jogador novamente controla Marty McFly e precisa viajar por diferentes períodos de tempo para recuperar objetos que foram espalhados pela linha temporal. A ideia é desfazer alterações no futuro que aconteceram por causa das mudanças no passado.
Apesar de trazer várias ideias diferentes, incluindo minijogos e desafios variados, o jogo não conseguiu agradar muito. Algumas análises chegaram a comparar a estrutura do jogo com uma cópia de Super Mario Bros. Os gráficos eram considerados aceitáveis e os controles funcionavam, mas não tinha quase nada a ver com os filmes e a dificuldade continuava sendo um problema.
Outro título que ficou famoso pela má fama foi Friday the 13th, lançado em 1989. O jogo foi desenvolvido pela Atlus e publicado pela LJN.
A história se passa no acampamento Crystal Lake. O jogador precisa controlar diferentes conselheiros do acampamento enquanto tenta sobreviver aos ataques de Jason Voorhees. Cada personagem tem características próprias, e o objetivo final é derrotar Jason antes que todos os conselheiros morram. A revista GamePro chegou a colocar o jogo em uma lista dos piores jogos baseados em filmes já feitos. A jogabilidade era confusa e o equilíbrio do jogo deixava a experiência frustrante.

Outro título dessa fase foi The Karate Kid, lançado em 1987 para NES. O jogo foi desenvolvido pela Atlus e baseado no filme Karatê Kid de 1984. Ele apresenta algumas fases inspiradas em momentos do filme, incluindo treinos e o torneio final de karatê. Apesar de não ser tão ruim quanto outros jogos da LJN, também não fez jus ao filme. Era um jogo simples e difícil, algo comum nos títulos licenciados daquele período.
Além desses exemplos, a LJN publicou vários outros jogos baseados em filmes durante os anos 80, como A Nightmare on Elm Street, Jaws e Who Framed Roger Rabbit.
Em geral esses jogos tinham gráficos de ruim a razoáveis para os padrões do NES, mas tinham problemas parecidos. A jogabilidade era limitada, a dificuldade muitas vezes exagerada e a ligação com os filmes nem sempre era bem aproveitada. Por causa disso muitos desses títulos acabaram ficando conhecidos como curiosidades ou peças de coleção, mais lembrados pela fama ruim do que pela qualidade.
Mas, qual o motivo?
Ter péssimos jogos no catálogo é algo que já sabemos que faz parte da história da LJN, mas, qual o motivo disso? Por que, mesmo não sendo a desenvolvedora dos jogos, ela acabou ficando com a má fama?
Essa má fama de muitos jogos não tem uma única causa. São vários fatores ligados ao modelo de negócios usado pela empresa e por outros publishers de jogos licenciados nos anos 80 e começo dos anos 90.
Primeiro, ela entrou no mundo com jogos com a mesma ideia que tinha em relação a brinquedos: comprar licenças populares de filmes e séries e transformá-las em produtos. O foco principal era aproveitar era vender a marca e não necessariamente o produto.
Eles achavam que qualquer coisa que tinha uma marca famosa estampada venderia bem, mesmo não sendo bom. Grande parte do orçamento ia para pagar a licença, o que deixava menos dinheiro para o desenvolvimento e ainda era dividido entre o setor de jogos e o de brinquedos.
Além disso ela contratava estúdios externos como Rare, Atlus e Beam Software, que muitas vezes trabalhavam em vários projetos ao mesmo tempo. Isso fazia com que alguns jogos recebessem menos atenção ou fossem tratados como projetos menores.
Outro fator era o controle limitado. Os estúdios faziam os jogos e, se a publisher não exigisse revisões ou testes e controle de qualidade, então, o estúdio não tinha nada a ver com isso. Aí o jogo lançava com problemas de design, dificuldade mal equilibrada ou pouca polimento. Em alguns casos também tinham restrições impostas pelo licenciamento, que não permitia o uso de certos elementos, como músicas ou trechos, então, o estúdio tinha que improvisar.
Quando se observam exemplos como Back to the Future, Friday the 13th e Beetlejuice, fica claro que cada jogo teve problemas diferentes. Alguns sofreram com falta de coordenação com os criadores do filme, outros tinham ideias ambiciosas mas pouco tempo para refinamento, e alguns foram tratados como projetos menores dentro dos estúdios.
Esse conjunto de fatores ajuda a explicar por que até desenvolvedores talentosos às vezes acabavam lançando jogos fracos quando trabalhavam em projetos licenciados daquela época.
A fase dos 16 bits e o caso curioso de Maximum Carnage
Quando os consoles de 16 bits chegaram ao mercado, com sistemas como Super Nintendo e Mega Drive, a LJN continuou apostando em jogos licenciados. A diferença é que alguns títulos dessa fase tiveram resultados um pouco melhores.
O caso mais famoso é Spider Man and Venom: Maximum Carnage, lançado em 1994. O jogo foi desenvolvido pela Software Creations e publicado pela Acclaim usando o selo LJN.

A história é baseada em um arco popular dos quadrinhos da Marvel. Nela o vilão Carnificina lidera um grupo de criminosos em Nova York, criando uma onda de caos pela cidade. Para enfrentar essa ameaça o Homem-Aranha e o Venom acabam trabalhando juntos, algo raro na época.
Durante o jogo os dois personagens enfrentam vários inimigos em fases cheias de ação no estilo beat em up. Ao longo da história outros personagens da Marvel também aparecem para ajudar, incluindo Capitão América, Morbius e Gata Negra.
No lançamento o jogo recebeu críticas mistas. Algumas revistas elogiaram a fidelidade aos quadrinhos e o estilo visual, enquanto outras reclamaram da repetição das fases. Com o passar dos anos, porém, a opinião geral mudou bastante.
Hoje Maximum Carnage costuma ser lembrado como um dos melhores jogos do Homem-Aranha da era 16 bits. Um dos pontos mais marcantes é a trilha sonora da versão de Super Nintendo, feita pela banda Green Jellÿ. Outro detalhe interessante é que várias cenas da história usam quadros reais dos quadrinhos para contar os acontecimentos, algo pouco comum nos jogos daquela época.
Mesmo com esse destaque positivo, a maior parte dos outros jogos publicados pela LJN nesse período continuou recebendo críticas.
Entre eles está Wolverine Adamantium Rage, lançado em 1994. O jogo tinha gráficos coloridos e uma boa representação do personagem dos X-Men, mas a dificuldade elevada acabou afastando muitos jogadores.
Outro exemplo é Terminator 2 Judgment Day, lançado em 1993 para Super Nintendo (a versão de Mega Drive foi feita por outro dev e publisher). O jogo misturava ação e tiros, mas foi criticado por telas de carregamento demoradas e jogabilidade repetitiva.
True Lies, baseado no filme estrelado por Arnold Schwarzenegger, também saiu nessa época. O jogo misturava tiro em terceira pessoa com algumas fases de avião. A recepção foi discreta e o jogo acabou não chamando muita atenção.
Warlock, inspirado no filme O Feiticeiro, também apareceu no Super Nintendo. O jogo tentava usar uma perspectiva em pseudo 3D, mas a execução não impressionou muito.
Mesmo com algumas tentativas interessantes, poucos desses jogos conseguiram realmente se destacar. Maximum Carnage acabou sendo a exceção mais lembrada dentro do catálogo da empresa.
O declínio da LJN e o fim da marca
Ao longo dos anos 1990 a reputação da LJN já estava bastante desgastada. Muitos jogadores associavam o nome da empresa a jogos licenciados de qualidade duvidosa. Isso acabou pesando na imagem da marca.
Depois da compra pela Acclaim em 1990, o selo continuou sendo usado por alguns anos. Mesmo assim a estratégia começou a mudar. Os jogos do Mega Drive, mesmo tendo o selo da Acclaim, como True Lies e Terminator não levam o selo da LJN, embora ele esteja na capa dos games do Super Nes.
Por volta de 1994 ou 1995 a Acclaim decidiu encerrar oficialmente o uso do nome LJN. A empresa foi dissolvida e integrada completamente à estrutura da nova dona. A partir desse momento os jogos passaram a sair diretamente com o nome Acclaim, sem usar o antigo selo. Muitos funcionários da divisão foram demitidos e a marca desapareceu do mercado.
Durante as gerações de consoles seguintes, incluindo PlayStation, Saturn e Nintendo 64, o nome LJN praticamente não apareceu mais. O único caso curioso aconteceu anos depois.

Em 1999 e 2000 o jogo Spirit of Speed 1937, lançado para Dreamcast, apareceu com a marca LJN. Foi uma situação estranha, já que a empresa não existia mais oficialmente havia bastante tempo.
Mesmo com esse pequeno retorno, a história da LJN já estava encerrada. A empresa acabou ficando marcada como um exemplo curioso da época em que muitos jogos baseados em filmes eram produzidos rapidamente para aproveitar o sucesso de Hollywood.
Para muitos jogadores o nome LJN ainda traz lembranças de frustração e jogos difíceis demais. Ao mesmo tempo ele também faz parte de um período muito específico da história dos videogames, quando o mercado ainda estava aprendendo a lidar com adaptações de filmes e personagens famosos.
Agora, fale conosco: Qual o seu game preferido da LJN? Qual o pior?
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