Perto das eleições, vamos falar um pouco sobre Jogos Políticos Brasileiros que satirizam a nosso sistema eleitoral, candidatos e mais
Jogos políticos não são uma novidade. Existem diversos simuladores de burocracia ou gerenciadores de cidade cujo a necessidade de administrar recursos faz parte da gameplay. E jogos políticos satíricos existem a muito tempo. O primeiro documentado da linha é “I’m Sorry”, desenvolvido pela Coreland e publicado pela SEGA!
Um jogo derivado de Pac-Man e uma sátira ao “ganancioso” ex-primeiro-ministro japonês Kakuei Tanaka. Aimusōrī significa “Me desculpe” (título da versão em inglês), um trocadilho com “Sori”, que é a palavra japonesa para primeiro-ministro. Como Tanaka, você coleta barras de ouro e desvia ou derrota inimigos como Madonna, Carl Lewis e até o Michael Jackson!
Você derrota os inimigos com o punho gigante de Tanaka e pode pular sobre eles. Para completar cada nível, você deve coletar todo o ouro e depositá-lo no banco. Você só pode carregar 10 barras de ouro por vez e, nas fases posteriores, precisa fazer vários depósitos no banco.
E a política brasileira sempre rendeu piada, charge e meme. No meu caso, eu aprendi muito sobre a política desde a época do Casseta & Planeta, quando via paródias do presidente Viajando Henrique Cardoso ou um Itamar Franco com um topete enorme.
Então era só questão de tempo até esse caldo cultural de rir da nossa própria desgraça chegar aos videogames. Nos últimos anos, desenvolvedores independentes transformaram eleições, polarização e até a pandemia em fases, chefes e golpes especiais. Alguns viraram fenômeno de nicho, outros viraram caso de Justiça. E se você ficar com dúvidas, é só deixar um comentário.
Jogos Políticos Brasileiros
Bolsomito 2K18: o caso que parou no Ministério Público
Um dos Jogos Políticos mais conhecidos dessa lista é Bolsomito 2K18, um beat’em up em pixel art lançado para PC na Steam pelo estúdio BS Studios. Ele chegou à loja em 5 de outubro de 2018, dois dias antes do primeiro turno da eleição presidencial daquele ano, e o timing foi o primeiro ingrediente da confusão.
A mecânica é a clássica dos jogos de pancadaria em duas dimensões, em que o personagem avança pelo cenário enfrentando ondas de inimigos. O protagonista, chamado Bolsomito, é uma versão caricata do então candidato Jair Bolsonaro, apelido usado por seus apoiadores. A descrição oficial na Steam vendia o jogo como politicamente incorreto, cheio de sátiras e referências nacionais, com cenários brasileiros e veículos variados.
O enredo é uma cruzada contra um suposto exército vermelho que pretende instaurar uma ditadura ideológica, e os inimigos fazem referência a militantes de esquerda, feministas, integrantes de movimentos sem-terra e pessoas LGBT. Segundo o Ministério Público, o jogador somava pontos e avançava de fase ao espancar esses personagens.

A reação institucional veio rápida. Em 10 de outubro de 2018, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios abriu um inquérito civil público para investigar a BS Studios e pediu que a Valve, dona da Steam, tirasse o jogo do ar e informasse os dados cadastrais dos responsáveis. Para os promotores, o game tinha clara intenção de prejudicar um candidato à Presidência, atrapalhar as eleições e causar danos morais coletivos a movimentos sociais, a feministas e à comunidade LGBT.
Duas semanas depois, em 25 de outubro, o Ministério Público Federal no Rio Grande do Sul também entrou com ação civil pública pedindo a retirada do jogo. O procurador argumentou que havia apologia à violência contra defensores de direitos humanos e abriu um inquérito para apurar lesão à dignidade humana e incitação ao ódio.
O MPF já havia notificado a BS Studios para suspender a venda em qualquer plataforma. Na ocasião, a Justiça Federal entendeu que não era competente para julgar o caso, e o MPDFT voltou à carga em 4 de dezembro de 2018 com nova ação civil pública contra a Valve. O promotor Frederico Meinberg sustentou que o jogo expunha o país de forma negativa no cenário internacional.
Do lado da Valve, a situação era delicada. A imprensa especializada lembrou que o jogo, tecnicamente, não violava as regras da Steam na época, que vivia uma fase de curadoria bem frouxa e já tinha enfrentado outras polêmicas. No dia 8 de janeiro de 2019, o jogo foi retirado do ar de forma definitiva.
Punhos de Repúdio: a sátira contra o negacionismo
Punhos de Repúdio, da Braindead Broccoli, já foi para o outro lado e tirou sarro do negacionismo durante o período da pandemia de covid 19.
O jogo foi desenvolvido por um estúdio independente e chegou à Steam em 10 de agosto de 2022, ao preço de R$ 16,90. Fora do Brasil ele atende pelo nome de Pulling No Punches. Também está disponível na Epic Games Store e chegou ao Nintendo Switch em 25 de maio de 2023.
O game segue a fórmula dos beat’em ups arcade, como Streets of Rage e Final Fight, com arte desenhada à mão e animada quadro a quadro. Há quatro personagens jogáveis, cada um com golpes e itens desbloqueáveis, e dá para jogar em cooperativo local para até quatro pessoas.

O enredo se passa durante uma pandemia global fictícia que é ignorada por fanáticos que não acreditam que a doença seja real. Os heróis são quatro cidadãos comuns, protegidos com máscaras e luvas, que resolvem a situação na base dos socos, chutes, agarrões e cabeçadas contra uma multidão de negacionistas. A referência à pandemia de covid-19 e ao movimento antivacina é evidente, e o jogo acabou atraindo críticas tanto de brasileiros quanto de grupos nos Estados Unidos.
Foi um projeto de financiamento coletivo bem-sucedido. A campanha no Catarse arrecadou mais de R$ 50 mil, dez vezes a meta inicial de R$ 5 mil, o que garantiu a ambição de lançar também em consoles.
A promessa de levar o jogo a todas as plataformas não se cumpriu por completo. Segundo a cobertura da época, Punhos de Repúdio foi censurado no PlayStation e no Xbox, e os jogadores desses consoles ficaram sem a versão.
O estúdio publicou um pronunciamento oficial sobre o caso, mas não explica em detalhes qual regra das fabricantes teria sido usada para barrar o título. Na prática, o resultado foi um jogo que existe em PC e no Switch, mas não nas plataformas da Sony e da Microsoft.
Kandidatos e Políticos Memes Kombat: a pancadaria eleitoral
Há ainda uma vertente mais leve e mais numerosa, a dos jogos de luta com políticos como personagens. Kandidatos: Luta entre Políticos, lançado em 2020 para a Steam e para smartphones Android, bebe diretamente de Mortal Kombat e Street Fighter.
O jogador escolhe entre doze lutadores fictícios inspirados em candidatos eleitorais brasileiros, entre eles figuras reconhecíveis como Ciro Gomes e o Cabo Daciolo. Cada um solta bola de fogo, hadouken e supersoco. Segundo o próprio desenvolvedor, a Shaikonina Games, os cenários, personagens, programação e animação foram feitos por apenas uma pessoa.

Outro exemplo é Políticos Memes Kombat, produzido por um estúdio brasileiro e disponível apenas para Android e PC. A fórmula é parecida, com socos, chutes, pulos e magias, e Brasília aparece entre os cenários mais populares. Aqui, o jogo usa fotos digitalizadas dos políticos, deixando bem claro que a paródia é direcionada a pessoas em específico.
Por que alguns Jogos Políticos são proibidos e outros não?
Jogos com políticos, ou com religião, como foi o caso do polêmico Fight of Gods, que usou Jesus entre os lutadores, geralmente mexem com uma camada sensível do público e com as convicções dos jogadores, o que torna a discussão bastante acalorada quando surge a dúvida: Por que alguns jogos são barrados e outros são permitidos.
Esta foi uma dúvida bastante recorrente na época do lançamento de Punhos de Repúdio, e eu tive até a oportunidade de conversar com a social media da Braindead Broccoli, Luiza Bartolette, sobre o jogo, para o site que eu escrevia antes, o Married Games. Na época, perguntei para ela sobre o game e a comparação com o Bolsomito 2k18. A resposta foi bastante precisa:
“Não vemos relação. O jogo em questão defende violência contra minorias por serem minorias e foi proibido após ordem judicial afirmando exatamente isso. As razões para os personagens serem inimigos no nosso jogo são muito diferentes, como é óbvio. Dessa forma, quem tentar classificar os dois jogos como similares de qualquer maneira não entendeu pelo menos um dos dois jogos e está suscetível a todo tipo de falsa simetria.”
E a resposta não poderia estar mais correta.
Em Punhos de Repúdio, os inimigos são os negacionistas da pandemia, pessoas que botavam em risco os outros e atrapalhavam no controle de uma doença que, na vida real, levou mais de 700 mil pessoas ao óbito. O game Bolsomito 2k18 era algo apenas focado em atingir pessoas pertencentes a uma minoria social apenas por serem quem são.
Não havia um objetivo ou motivação por trás de colocar aqueles personagens em especial como adversários, exceto pelo fato de serem quem são.
Particularmente, também vejo o capricho e a dedicação ao fazer um jogo como uma evidência da motivação por trás dele. Games como o Punhos de Repúdio levam anos para serem feitos e tem um investimento pesado em arte, música e jogabilidade. Bolsomito 2K18 parece ter sido feito de qualquer forma apenas para causar polêmica e atrair o público pelo seu teor preconceituoso.
Os games de luta, por outro lado, como o “Kandidatos” e o “Políticos Meme’ não parecem ter uma posição específica e tiram sarro de todos os lados, dando golpes fortes e satíricos a todos os personagens, sem nenhum viés em especial. Lula, Bolsonaro, Cabo Daciolo, Ciro gomes, Michel Temer e Dilma Rouseff são igualmente tratados sem um ter uma vantagem clara sobre o outro.
É aí que mora a diferença entre uma paródia e um ataque gratuito a um lado ou ao outro. Quando o propósito é brincar e não apenas ofender. Punhos de Repúdio torna esteriótipos em vilões. Os games de luta pegam e tiram sarro de todos igualmente. E eles continuam aí para vendas.
A questão não é colocar um candidato de sua preferência como herói ou vilão. É qual a mensagem o jogo passa e como ela é transmitida. Concorda?
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