Relembre alguns dos Projetos do Google que a empresa vendeu como um grande avanço tecnológico, mas não deram certo.
Já parou para pensar em quantas ideias o Google já enterrou desde que se tornou o gigante que é hoje? A empresa adora anunciar novidades ambiciosas, prometer que vai reinventar algo (o e-mail, as redes sociais, os óculos, um serviço de streaming de games, como o que tem no Game Pass), e depois, alguns anos mais tarde, apagar a luz e fechar a porta sem muito alarde.
Esse hábito é tão recorrente que ganhou até apelido entre jornalistas de tecnologia: o “cemitério do Google“. Neste texto, vamos relembrar cinco desses projetos que fizeram sucesso, viraram assunto e, por motivos bem diferentes entre si, acabaram sumindo do mapa. E, se você ficar com dúvidas ao longo da leitura, é só deixar um comentário.
Projetos do Google
Google Reader
Se você conversar com alguém que usava internet ativamente entre 2005 e 2013, é bem provável que essa pessoa ainda sinta uma pontada de saudade ao ouvir o nome Google Reader. O serviço nasceu em outubro de 2005, criado pelo engenheiro Chris Wetherell, com uma proposta simples de resolver um problema real da época: juntar em um só lugar as atualizações de blogs e sites favoritos através do formato RSS, sem precisar visitar cada endereço manualmente.

Ao longo dos anos o Reader ganhou recursos como contagem de itens não lidos, organização por pastas e até um sistema de compartilhamento que funcionava quase como uma rede social entre os usuários mais fiéis, formando pequenas comunidades de curadoria de notícias.
O problema é que, apesar de amado por um público engajado, o Reader nunca conquistou as massas. Em março de 2013 o Google anunciou o fim do serviço, alegando queda no uso e uma estratégia de concentrar esforços em menos produtos. A ferramenta foi desligada em 1º de julho daquele ano.
Curiosamente, muita gente na imprensa especializada aponta que o verdadeiro motivo por trás do fechamento também tinha relação com o Google Plus, já que a empresa queria empurrar os usuários para lá em vez de manter um concorrente interno de descoberta de conteúdo. O resultado foi uma revolta tão grande que surgiu até um abaixo-assinado com mais de cem mil assinaturas pedindo para o serviço continuar no ar, sem sucesso algum.
Google Wave
Antes do Reader ser sacrificado, o Google já tinha dado uma amostra de como sabe embrulhar uma ideia complexa demais em uma apresentação chamativa. Em maio de 2009, durante a conferência Google I/O, a empresa revelou o Google Wave, criado pelos irmãos Lars e Jens Rasmussen, os mesmos que ajudaram a construir o Google Maps.

A proposta era ambiciosa. O Wave queria misturar e-mail, mensagem instantânea, wiki e rede social em uma única ferramenta, permitindo que os participantes de uma conversa vissem o texto sendo digitado em tempo real, antes mesmo de a mensagem ser enviada.
Na teoria, isso parecia o futuro da comunicação online. Na prática, quase ninguém entendeu para que servia. O acesso inicial era só por convite, a interface confundia até usuários avançados e o sistema pesava bastante nos navegadores da época, que ainda não estavam preparados para tanta interatividade simultânea.
Em agosto de 2010, pouco mais de um ano depois do lançamento, o Google anunciou que pararia de desenvolver o produto, e o serviço saiu do ar de vez em abril de 2012. A empresa garantiu que parte da tecnologia usada no Wave seguiu viva em outros produtos, incluindo o Google Docs, mas o projeto em si entrou para a história como um dos exemplos mais claros de uma boa ideia lançada sem explicação nenhuma sobre como usá-la.
Google Plus
Lançado em 2011, o Google Plus surgiu com a missão declarada de disputar espaço com Facebook e Twitter, em um momento em que as redes sociais já dominavam boa parte do tempo das pessoas na internet. No começo, a novidade chegou a atrair curiosos, ajudada pelo fato de que qualquer produto novo do Google gerava expectativa automática. Só que a adesão nunca se sustentou de verdade. Muita gente criava a conta, testava por curiosidade e simplesmente esquecia que ela existia, deixando o Google Plus como aquele quarto de hóspedes que ninguém visita.

O golpe final, no entanto, não veio da falta de uso, e sim de dois escândalos de segurança seguidos. Em outubro de 2018 o Wall Street Journal revelou que uma falha na API do Google Plus havia exposto dados de cerca de quinhentos mil usuários entre 2015 e 2018, incluindo nome completo, data de nascimento, endereço e informações de emprego. A empresa admitiu ter corrigido o problema meses antes, mas escolheu não avisar ninguém, por medo do desgaste de imagem em plena repercussão do escândalo da Cambridge Analytica, que na época atingia o Facebook.
Diante da pressão pública, o Google anunciou o fim da versão para consumidores da rede social. Antes mesmo de esse prazo se cumprir, uma segunda falha, dessa vez afetando mais de cinquenta e dois milhões de contas, fez a empresa antecipar o encerramento definitivo para abril de 2019, encerrando de vez a tentativa frustrada de brigar de igual para igual com o Facebook.
Google Glass
Poucos produtos resumem tão bem a mistura de fascínio e desconfiança que a tecnologia vestível provoca quanto o Google Glass. Nascido dentro do laboratório de projetos experimentais Google X, o dispositivo foi apresentado oficialmente em abril de 2012, quando o cofundador Sergey Brin surgiu usando o óculos em um evento em São Francisco. A proposta parecia tirada de filme de ficção científica, com uma pequena tela posicionada acima do olho direito, capaz de mostrar notificações, mapas, previsão do tempo e até gravar vídeos e fotos por comando de voz.

O programa Explorer Edition abriu para o público em geral em 2014, custando 1500 dólares, um valor salgado para um acessório de aparência estranha e funções ainda limitadas. Rapidamente o Glass virou alvo de piadas, apelidado de forma pejorativa nos Estados Unidos, e enfrentou uma onda de preocupação sobre privacidade, já que qualquer pessoa usando o dispositivo poderia, em teoria, estar gravando quem estivesse à sua frente sem aviso nenhum.
Em 2015 o Google encerrou a versão voltada ao consumidor comum e reposicionou o produto para o mercado corporativo, lançando em 2017 a linha Glass Enterprise Edition, voltada a indústrias e ambientes de trabalho como manufatura e logística, onde efetivamente encontrou alguma utilidade prática. Mesmo assim, o capítulo final chegou em março de 2023, quando a empresa anunciou o fim das vendas da Enterprise Edition 2, encerrando de forma discreta, quase sem aviso, uma década inteira de tentativas de emplacar óculos inteligentes no mercado.
Google Stadia
Se tem um projeto falido do Google que mexe diretamente com quem gosta de videogame, esse projeto é o Stadia. Anunciado com pompa em 2019, o serviço prometia transformar a forma como as pessoas jogavam, eliminando a necessidade de comprar um console ou um computador potente. Toda a computação pesada ficava a cargo dos servidores do próprio Google, e o jogador só precisava de uma conexão de internet estável e de uma tela, seja um celular, uma televisão ou o navegador Google Chrome, para rodar títulos pesados em qualidade que, na teoria, chegava a 4K com 60 quadros por segundo.

O Stadia estreou oficialmente em novembro de 2019 com apenas 21 jogos disponíveis, e apenas um deles, o game de terror Gylt, era exclusivo da plataforma, o que já demonstrava a fragilidade do catálogo logo de largada. A empresa chegou a manter um estúdio interno batizado de Stadia Games and Entertainment para produzir conteúdo próprio, mas encerrou essa divisão já em fevereiro de 2021, cancelando projetos que estavam em desenvolvimento e reduzindo ainda mais o ritmo de lançamentos.
Some a isso um modelo de negócio confuso, que cobrava mensalidade e ainda exigia a compra individual de cada jogo, justamente na época em que a concorrência apostava em assinaturas com biblioteca inclusa, como o Xbox Game Pass da Microsoft, e fica fácil entender por que o público nunca abraçou a ideia. Em setembro de 2022 o Google anunciou o fim do Stadia, com desligamento definitivo dos servidores em 18 de janeiro de 2023, apenas três anos e dois meses depois do lançamento.
A empresa prometeu reembolsar compras de jogos e de hardware, incluindo o controle exclusivo da plataforma, mas todo o conteúdo hospedado na nuvem simplesmente deixou de existir para sempre, levando junto qualquer chance de o Stadia se tornar, como prometido, o futuro dos videogames.
O que esses cinco casos têm em comum
Olhando os cinco exemplos lado a lado, dá para perceber um padrão bem claro na forma como o Google constrói e destrói seus próprios projetos. Quase sempre existe um anúncio grandioso, cheio de promessas de mudar radicalmente algum hábito das pessoas, seguido de uma execução que não convence o público em massa, e finalizado com um encerramento relativamente rápido diante do tamanho do investimento inicial.
Reader, Wave, Plus, Glass e Stadia surgiram em décadas diferentes, resolveram problemas completamente diferentes e ainda assim compartilham essa mesma curva de vida curta e barulhenta. Fica a pergunta para quem acompanha o próximo grande anúncio da empresa: será que dessa vez é diferente, ou estamos só assistindo ao início de mais um capítulo do mesmo cemitério?
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